Christian Catão

Ensino da língua portuguesa por meio do WhatsApp

A ideia da dissertação "A Língua Portuguesa que se compartilha por meio do WhatsApp: um estudo sobre as práticas pedagógicas na rede pública de educação de Belo Horizonte", que defendi, em 2018, na Faculdade de Educação da UFMG, surgiu em minhas aulas de Língua Portuguesa (LP) e Redação, na rede particular de educação da capital mineira. Percebia pouca correspondência entre a teoria e a prática durante as aulas. As de gramática, principalmente, são cansativas, pois sempre enfocam conteúdos distantes da vivência dos alunos, ficando latente a indisciplina deles, que vai contra a boa produtividade da aula.

Como mudar isso, para que os discentes se interessem pelas aulas de LP? Basta otimismo, compromisso e motivação? Não. A partir do momento em que assisti a aulas em que outros professores utilizavam novas Tecnologias da Informação e Comunicação (TDIC), percebi que elas poderiam ser alternativa interessante a cenário. Ao ter contato com o WhatsApp, notei que ele promove interação entre estudantes e professores e oferece novos recursos de ensino e aprendizagem, pois permite troca de mensagens de texto, imagens, sons e vídeos. Contudo, ainda são poucos os estudos realizados sobre ele, principalmente quando se trata de ensino-aprendizagem.

Mais de 50% dos jovens nas grandes cidades não abandonam celulares e tablets e não se desconectam um minuto sequer da internet. Acessam redes sociais, músicas, vídeos, jogos e interagem uns com os outros, em qualquer classe socioeconômica.

Tenho tido êxito com o aplicativo na sala de aula. Há pouco mais de um ano, criei um grupo no WhatsApp com meus alunos, e compartilho informações, gravações de áudio com o conteúdo a ser estudado e questões que eles devem responder. Ao começar a aula, perdia tempo chamando a atenção dos alunos por utilizarem o celular na sala. Então, percebi que poderia aproveitar aquele interesse deles de uma maneira que contribuísse para o aprendizado. Apesar de existir lei que proíbe o uso de celulares na sala de aula, soube que é permitido o uso pedagógico. Cadastrei os números dos alunos em um grupo no aplicativo e passei a utilizá-lo como ferramenta de suporte ao trabalho, integrada à dinâmica das aulas. Explico o conteúdo e passo uma questão para eles responderem pelo WhatsApp o mais rápido possível, para ver quem responde primeiro. A sala fica em silêncio total, o que antes raramente acontecia.

Além das questões em sala, envio gravações de áudio de até três minutos com assuntos discutidos em aula. Também envio questões para o grupo durante a tarde, geralmente sobre assunto discutido na aula daquele dia.

No início, muitos estranharam, pois estavam acostumados a ver o WhatsApp apenas como ferramenta para conversar com amigos, e mostraram receio em estudar pelo aplicativo. Após algumas aulas, porém, incluíram o grupo na rotina de estudos. A direção da instituição de ensino foi aberta à ideia, embora demonstrasse incerteza inicial sobre como o aplicativo seria incorporado às aulas.

Fica clara a necessidade de mudanças na formação docente, visando à melhor preparação de profissionais para o trabalho com a ferramenta na sala de aula, a fim de que sejam capazes não só de formar indivíduos pensantes e competentes, mas contribuir para a melhoria do ensino de LP no Brasil.

O uso de celulares é visto como preocupante por muitos educadores, pois desvia a atenção dos alunos. Assim, a pesquisa forneceu subsídios ao planejamento da utilização do aplicativo e abriu novos horizontes sobre as TDIC, especialmente os aplicativos de comunicação, que considero ferramentas-chave no processo de ensino-aprendizagem, possibilitando discussões fora da sala de aula. As redes sociais ampliaram a prática pedagógica e a discussão de temáticas antes interrompidas e esquecidas.

Christian Catão

Mestre em Educação e Docência (FAE-UFMG)

Christian Catão
  • Christian Catão Professor
  • Jornalista e Professor de Língua Portuguesa, Literatura Brasileira e Produção de Texto com mais de 10 anos de experiência no ensino fundamental II, médio e\nsuperior. Atualmente, leciona no Mega...

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